A viola caipira, este esplêndido instrumento musical, que reúne no seu bojo inúmeras possibilidades para sua execução, é parte da história brasileira, haja vista haver aqui chegado, com o europeu explorador, no início do século XVI. É chamada de viola de 10 cordas ou viola brasileira, para realçar a dissemelhança com a família do violino, também chamada viola de arco, violeta ou alto, instrumento musical de arco e quatro cordas.
Segundo historiadores, a viola portuguesa de dez cordas, da qual se originou a atual viola caipira brasileira, foi trazida para o Brasil quando da Colonização. Chegou com os jesuítas, no Governo de Thomé de Souza, em 1549, e tinha como tarefa primeira auxiliar aqueles religiosos na catequização dos índios.
A
violonista carioca e doutora em História Social pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro, Marcia Taborda, em seu livro Violão e identidade nacional (Civilização Brasileira, 2011, p. 41),
registra que os jesuítas introduziram “de modo sistemático as violas e os
demais instrumentos europeus”. Mas, acrescenta a professora, a viola era,
também, comum entre os colonos portugueses.
Tanto
que no livro A arte de pontear a viola
(edição do autor, 2000, p. 21) o violeiro, compositor e pesquisador mineiro Roberto
Corrêa diz, citando relatos históricos, que a viola “no século XV e, sobretudo
no século XVI, era largamente difundida em Portugal, sendo considerada o
principal instrumento dos jograis e cantares trovadorescos”.
Levando
em conta as observações de Roberto Corrêa, por muito tempo a viola brasileira manteve
a estrutura básica da ancestral portuguesa, com cravelhas de madeira, cavalete
trabalhado e a regra – madeira do braço onde se fixam os trastes – no nível do
tampo sonoro do instrumento. Assim eram as violas do Brasil ao longo dos anos
da colonização.
Diz o pesquisador
mineiro que, além de manter inalteradas as principais características originais,
a viola trazida pelos jesuítas preservou o caráter popular e continua, ainda
hoje, difundida e presente em várias das manifestações culturais tradicionais. Até
o início do século XX sua construção era totalmente artesanal, adotando um
processo familiar e que seguia os padrões da luteria portuguesa.
No início
do século XX, a par do declínio da construção artesanal, surgiram as primeiras
fábricas especializadas na produção em série de instrumentos musicais de corda no
Brasil. As duas pioneiras na fabricação são a Giannini (1900) e a Del
Vecchio (1902); a Rozini somente surgiria em 1995. Todas na cidade
de São Paulo, e seguindo os modelos tradicionais.
MANTENDO A TRADIÇÃO
Por conta da própria história da viola no Brasil, da sua fabricação sob os auspícios dos religiosos da Companhia de Jesus, essa arte terminou por se espalhar por todo o País, e não há um Estado brasileiro onde não haja bons e refinados construtores de instrumentos de corda, entre os quais a viola caipira brasileira, de 10 cordas.
No
estado de Goiás – na cidade de Aparecida de Goiânia, município da Região
Metropolitana de Goiânia – está Marcos Evangelista de Freitas, 50 nos de idade, dos quais 25 anos com a luteria,
tornando-se um dos mais conceituados luthiers do país. Em 2010, ele venceu o
III Concurso Nacional de Luteria Enzo Bertelli, do Conservatório de Tatuí, no
estado de São Paulo, concorrendo com uma réplica do Hauser 1937, violão do luthier alemão Hermann Hauser em que André
Segóvia tocou.
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| Marcos Evangelista |
“Essas
madeiras são escolhidas pela densidade, capacidade de projeção e qualidade de
timbre e projetadas para violões de cordas de nylon e de aço. A madeira define a
sonoridade do instrumento, se mais aguda ou mais grave” – explica.
Os
violeiros Marcus Biancardini, Junior Goiano e Marcos Violeiro e a dupla André e
Andrade estão entre os tocam em violas e violões fabricados por Marcos
Evangelista de Freitas.
Em
fevereiro de 2021, Marcos participou do curso on-line Imersão da viola caipira, do professor Paulo Tavares, em Goiânia, quando
abordou a construção industrial de viola, da mais simples e barata à mais cara,
e da produção artesanal, e falou sobre a sua vida profissional:
“Eu
comecei na arte de construir instrumentos de corda no início dos anos 2000,
como uma brincadeira, um passatempo. Gostei dos resultados e tomei como
desafio, mas sem a pretensão de me destacar na fabricação de violas. Na medida
em que meu trabalho foi agradando, passei a estudar e a pesquisar sobre a arte
de construir a violas.”
Sem
acesso às ferramentas adequadas, ele enfrentou dificuldades, mas, com esforço,
foi vencendo etapas. “Atualmente há muita informação, seja em livros; na
internet, em cursos on-line ou gravados; em universidades e escolas
especializadas na arte de construir e de tocar a viola caipira. Agora, quem vai
por esse caminho já encontra certas facilidades” – diz ele.
“Mas
isso não quer dizer que a luteria seja algo fácil” – adverte Marcos, advertindo
que o começo sempre é difícil. “Aqui em nosso estado o terreno é fértil, pois
nas cidades goianas de um modo geral respira-se a chamada música raiz, com
muitos e muitos cantores e duplas, o que facilita no desenvolvimento da
profissão.”
BOM VIOLEIRO QUER BOA VIOLA
E, como diz o luthier, bom violeiro sempre busca um bom instrumento. E esse bom instrumento está mais ligado à produção artesanal do que às montagens industriais. “É claro que há bons instrumentos de fabricação industrial, não se pode negar; mas uma viola construída por um luthier tem probabilidade de durar mais, de apresentar um melhor timbre, e não há dúvida de que há diferença entre uma viola e outra, e mais ainda entre uma artesanal e uma de linha de produção industrial.”
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| Marcus Biancardini com a viola |
“É fundamental, a
mecânica de cada peça no arcabouço do instrumento. Como na fabricação
industrial de uma viola o processo é mais rápido do que na luteria, ainda com a
possibilidade de o operário não ter a visão de conjunto, há riscos como, por
exemplo, de uma colagem inadequada, da espessura de uma determinada peça que não
ser a ideal. O luthier sabe da posição de cada peça e quando cada uma está
ideal, e isso leva a um bom instrumento.”
Na linha de montagem industrial
são dezenas de instrumentos produzidos em poucos dias, enquanto na luteria, com
um só profissional trabalhando, da seleção da madeira até a afinação do
instrumento, o fabrico pode chegar a um mês.
“Eu costumo gastar 20
dias'” – diz Marcos, lembrando que outra diferença que considera fundamental
entre instrumento de linha de produção industrial e de luteria é o tempo de
duração de cada um. “Um luthier não faz um instrumento para durar cinco ou seis
anos; ele constrói um instrumento para passar de geração a geração, para durar
mais de 100 anos.”
Por isso, ele justifica,
é que uma viola, por exemplo, construída por um luthier custa mais. “Isso
porque é grande o capricho do profissional, pois cada instrumento é como se
fosse um filho, tem todo um processo de geração” – conclui Marcos Evangelista
de Freitas.
INFORMAÇÕES
Marcos Evangelista de FreitasRua Cândida Santos Quadra 39 Lote 07, bairro Ilda, Aparecida de Goiânia.
Telefone 62-98230-4354.
VEJA AS PÁGINAS
GianniniDel Vecchi
Rozini


Parabéns pelo Blog Ari, grande abraço amigo!
ResponderExcluirObrigado, Rose. Grande abraço.
ExcluirMeu mestre Professor Ari Donato , aguardo por uma pérola deste quilate. BELA MATÉRIA e parabéns pelo blog
ResponderExcluirÉ o que explanou para i Mestre Perfilino Eugênio Ferreira Neto da rádio educadora. Quem escuta a sua rádio na WEB: www.eradoradio.com.br, seis meses depois, sem esforços, não é mais um ignorante culturalmente, digo a mesma coisa para o mestre Ari. Espero em seis meses aprender uma ruma de coisas boas. Obrigado e parabéns. Iderval Reginaldo Tenório
Obrigado meu nobre e amigo médico. Grande abraço.
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