quinta-feira, 9 de abril de 2026

O Brasil toca viola desde 1549

A viola caipira, este esplêndido instrumento musical, que reúne no seu bojo inúmeras possibilidades para sua execução, é parte da história brasileira, haja vista haver aqui chegado, com o europeu explorador, no início do século XVI. É chamada de viola de 10 cordas ou viola brasileira, para realçar a dissemelhança com a família do violino, também chamada viola de arco, violeta ou alto, instrumento musical de arco e quatro cordas.

Segundo historiadores, a viola portuguesa de dez cordas, da qual se originou a atual viola caipira brasileira, foi trazida para o Brasil quando da Colonização. Chegou com os jesuítas, no Governo de Thomé de Souza, em 1549, e tinha como tarefa primeira auxiliar aqueles religiosos na catequização dos índios.

A violonista carioca e doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marcia Taborda, em seu livro Violão e identidade nacional (Civilização Brasileira, 2011, p. 41), registra que os jesuítas introduziram “de modo sistemático as violas e os demais instrumentos europeus”. Mas, acrescenta a professora, a viola era, também, comum entre os colonos portugueses.

Tanto que no livro A arte de pontear a viola (edição do autor, 2000, p. 21) o violeiro, compositor e pesquisador mineiro Roberto Corrêa diz, citando relatos históricos, que a viola “no século XV e, sobretudo no século XVI, era largamente difundida em Portugal, sendo considerada o principal instrumento dos jograis e cantares trovadorescos”.

Levando em conta as observações de Roberto Corrêa, por muito tempo a viola brasileira manteve a estrutura básica da ancestral portuguesa, com cravelhas de madeira, cavalete trabalhado e a regra – madeira do braço onde se fixam os trastes – no nível do tampo sonoro do instrumento. Assim eram as violas do Brasil ao longo dos anos da colonização.

Diz o pesquisador mineiro que, além de manter inalteradas as principais características originais, a viola trazida pelos jesuítas preservou o caráter popular e continua, ainda hoje, difundida e presente em várias das manifestações culturais tradicionais. Até o início do século XX sua construção era totalmente artesanal, adotando um processo familiar e que seguia os padrões da luteria portuguesa.

No início do século XX, a par do declínio da construção artesanal, surgiram as primeiras fábricas especializadas na produção em série de instrumentos musicais de corda no Brasil. As duas pioneiras na fabricação são a Giannini (1900) e a Del Vecchio (1902); a Rozini somente surgiria em 1995. Todas na cidade de São Paulo, e seguindo os modelos tradicionais.

MANTENDO A TRADIÇÃO

Por conta da própria história da viola no Brasil, da sua fabricação sob os auspícios dos religiosos da Companhia de Jesus, essa arte terminou por se espalhar por todo o País, e não há um Estado brasileiro onde não haja bons e refinados construtores de instrumentos de corda, entre os quais a viola caipira brasileira, de 10 cordas.

No estado de Goiás – na cidade de Aparecida de Goiânia, município da Região Metropolitana de Goiânia – está Marcos Evangelista de Freitas, 50  nos de idade, dos quais 25 anos com a luteria, tornando-se um dos mais conceituados luthiers do país. Em 2010, ele venceu o III Concurso Nacional de Luteria Enzo Bertelli, do Conservatório de Tatuí, no estado de São Paulo, concorrendo com uma réplica do Hauser 1937, violão do luthier alemão Hermann Hauser em que André Segóvia tocou.

Marcos Evangelista
Natural da cidade goiana de Rubiataba, Marcos mudou-se para Aparecida de Goiânia em 1990, levando na bagagem sua oficina especializada em construção de violões e de violas de dez cordas. No fabrico de seus instrumentos ele usa madeiras de tradição na luteria, como cedro vermelho, abeto alemão, imbuia, ébano, jacarandá da Bahia, mogno e maple de regiões da América do Norte e do sul e da Europa.

“Essas madeiras são escolhidas pela densidade, capacidade de projeção e qualidade de timbre e projetadas para violões de cordas de nylon e de aço. A madeira define a sonoridade do instrumento, se mais aguda ou mais grave” – explica.

Os violeiros Marcus Biancardini, Junior Goiano e Marcos Violeiro e a dupla André e Andrade estão entre os tocam em violas e violões fabricados por Marcos Evangelista de Freitas.

Em fevereiro de 2021, Marcos participou do curso on-line Imersão da viola caipira, do professor Paulo Tavares, em Goiânia, quando abordou a construção industrial de viola, da mais simples e barata à mais cara, e da produção artesanal, e falou sobre a sua vida profissional:

“Eu comecei na arte de construir instrumentos de corda no início dos anos 2000, como uma brincadeira, um passatempo. Gostei dos resultados e tomei como desafio, mas sem a pretensão de me destacar na fabricação de violas. Na medida em que meu trabalho foi agradando, passei a estudar e a pesquisar sobre a arte de construir a violas.”

Sem acesso às ferramentas adequadas, ele enfrentou dificuldades, mas, com esforço, foi vencendo etapas. “Atualmente há muita informação, seja em livros; na internet, em cursos on-line ou gravados; em universidades e escolas especializadas na arte de construir e de tocar a viola caipira. Agora, quem vai por esse caminho já encontra certas facilidades” – diz ele.

“Mas isso não quer dizer que a luteria seja algo fácil” – adverte Marcos, advertindo que o começo sempre é difícil. “Aqui em nosso estado o terreno é fértil, pois nas cidades goianas de um modo geral respira-se a chamada música raiz, com muitos e muitos cantores e duplas, o que facilita no desenvolvimento da profissão.”

BOM VIOLEIRO QUER BOA VIOLA

E, como diz o luthier, bom violeiro sempre busca um bom instrumento. E esse bom instrumento está mais ligado à produção artesanal do que às montagens industriais. “É claro que há bons instrumentos de fabricação industrial, não se pode negar; mas uma viola construída por um luthier tem probabilidade de durar mais, de apresentar um melhor timbre, e não há dúvida de que há diferença entre uma viola e outra, e mais ainda entre uma artesanal e uma de linha de produção industrial.”

Marcus Biancardini com a viola
Marcos lembra que a viola produzida em escala industrial – a que se compra em lojas do ramo – é feita dentro de um processo produtivo, em que cada operário tem uma função específica, de trabalhar com uma determinada peça e, nessa condição, desse processo de produção, o operário nem sempre tem uma ideia exata do papel de cada peça no conjunto do instrumento, e isso pode prejudicar o bom funcionamento.

“É fundamental, a mecânica de cada peça no arcabouço do instrumento. Como na fabricação industrial de uma viola o processo é mais rápido do que na luteria, ainda com a possibilidade de o operário não ter a visão de conjunto, há riscos como, por exemplo, de uma colagem inadequada, da espessura de uma determinada peça que não ser a ideal. O luthier sabe da posição de cada peça e quando cada uma está ideal, e isso leva a um bom instrumento.”

Na linha de montagem industrial são dezenas de instrumentos produzidos em poucos dias, enquanto na luteria, com um só profissional trabalhando, da seleção da madeira até a afinação do instrumento, o fabrico pode chegar a um mês.

“Eu costumo gastar 20 dias'” – diz Marcos, lembrando que outra diferença que considera fundamental entre instrumento de linha de produção industrial e de luteria é o tempo de duração de cada um. “Um luthier não faz um instrumento para durar cinco ou seis anos; ele constrói um instrumento para passar de geração a geração, para durar mais de 100 anos.”

Por isso, ele justifica, é que uma viola, por exemplo, construída por um luthier custa mais. “Isso porque é grande o capricho do profissional, pois cada instrumento é como se fosse um filho, tem todo um processo de geração” – conclui Marcos Evangelista de Freitas.

INFORMAÇÕES

Marcos Evangelista de Freitas
Rua Cândida Santos Quadra 39 Lote 07, bairro Ilda, Aparecida de Goiânia.
Telefone 62-98230-4354.

VEJA AS PÁGINAS

Giannini
Del Vecchi
Rozini


4 comentários:

  1. Rose Fernandes - Artist9 de abril de 2026 às 16:45

    Parabéns pelo Blog Ari, grande abraço amigo!

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  2. Meu mestre Professor Ari Donato , aguardo por uma pérola deste quilate. BELA MATÉRIA e parabéns pelo blog
    É o que explanou para i Mestre Perfilino Eugênio Ferreira Neto da rádio educadora. Quem escuta a sua rádio na WEB: www.eradoradio.com.br, seis meses depois, sem esforços, não é mais um ignorante culturalmente, digo a mesma coisa para o mestre Ari. Espero em seis meses aprender uma ruma de coisas boas. Obrigado e parabéns. Iderval Reginaldo Tenório

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